CARTA PARA UMA AVÓ

lucinha03

 

Mãe. Me disseram que eu te entenderia quando eu fosse mãe. Não vou mentir, não foi assim que aconteceu. Eu achei até fácil trocar uma fralda, dar banhos, mas mãe… Eu lembrei de você na primeira birra no meio da rua. Chorei e choro em muitas madrugadas em claro, com bebê no colo e exausta, pensando em como você sobreviveu àquilo tudo.

Me sinto tão fraca e você me parece tão forte.
Eu entendi o que você sentiu ao me ver em um hospital após meu acidente quando me vi impotente velando uma criança com febre.
Eu pensei em você quando eu não soube responder uma pergunta, vi seus olhos cansados quando uma criança me pedia colo enquanto eu cozinhava. Cada dia que tento faxinar a casa com as duas me seguindo, lembro de você acordando antes das 5 da madrugada só para poder fazer as coisas em paz e silêncio e dar conta de tudo.

Eu achava que você não se importava comigo, quando me dizia NÃO, e hoje eu sei que os nãos mostravam mais o seu amor do que um afobado sim.

Eu não tinha ideia de todas as despesas de uma casa. Mais ainda, eu não tinha idéia do quanto é difícil manter uma casa. Financeiramente e em harmonia.

Paz. União.
Mãe. Eu pensei em você quando visualizei minha filha me dizendo “eu não gosto mais de você” como tantas vezes eu lhe disse gritando.

Como pude ser tão cruel?

Nessa época eu achava que mãe não tinha o direito de ficar magoada, “eu não pedi para nascer!”. Não era assim que eu falava?
Mãe. Hoje meus olhos não são mais de filha, agora consigo te olhar como mãe e meus olhos são de compaixão!

E mais ainda: GRATIDÃO.

Poder sair, ir trabalhar e deixar o que tenho de mais valioso aos cuidados de quem cuida melhor que eu, que ama tanto quanto eu.

Você, que mesmo esgotada me socorre a cada chamada. Que adoça minhas filhas. Que zela e aconselha.

E o mesmo olhar que destina às minhas filhas, ainda destina a mim. O mesmo colo que todos ofereceram a elas assim que nasceram, você lembrou-se de apresentar a mim. Enquanto eu me via invisível após chegar da maternidade com um bebê, você ainda me enxergava. Foi no seu colo que eu chorei, de medo. Medo de não saber ser mãe.

Hoje eu consigo ver em você uma mãe, professora, com muitos filhos, poucos recursos e um marido machista que nunca sequer trocou uma fralda.
Hoje mãe, eu consigo olhar para você sem me colocar no centro da relação. Hoje consigo visualizar cada dificuldade que você passou sem ninguém para te estender a mão.
Hoje eu não te olho com os olhos de uma criança que espera que sua mãe seja uma heroína. Uma super mulher. Hoje olho com o olhar realista de que muitas vezes nossa única opção é fazer o melhor que podemos. É ser forte quando só queremos aceitar nossas fraquezas.

Hoje eu não olho com os olhos de uma adolescente que se sente o centro do mundo e consegue bater a porta no rosto de uma mãe. Não mãe… Hoje meu olhar é de mãe, que consegue se colocar no lugar de outra mãe. Atualmente, levanto a bandeira de não julgar uma mãe, sem parar para pensar que julgava a mais próxima e a mais importante de todas elas: você mãe.

 

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