QUEM NASCE PARA SER MÃE?

QUEM NASCEU PARA SER MÃE?

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Mais uma noite. E outra. E sempre. Ao infinito me vem a sensação. Eu acordada novamente.
Sono? Sim eu o tenho mas, tenho um bebê. Portanto, tirando raros sortudos por aí, dormir não faz parte da minha vida por uns bons tempos.

Agora são as cólicas, depois crise e sai crise…vem dentes, gripes…uma avalanche por um bom tempo. E como eu sei? Porque não sou marinheira de primeira viagem. A maternidade já me é conhecida de outrora. E não sei se ter já esta experiência me acalenta ou me apavora.

5 horas. Como um despertador escuto seus gemidos. A cólica começa. A pego no colo em silêncio e sento com ela na cama, os olhos ainda fechados, o corpo parcialmente adormecido.

Ela chora. Ofereço o peito. Ela aceita mas não quer se alimentar, apenas se acalentar. Resmunga. E lá vamos nós em pé novamente.

Nino e embalo. Silêncio. Suspiro. Em meio a penumbra só se ouve meus passos trôpegos, aperto com doçura a barriga dela contra a minha quase trombando nas paredes.

Ela se aquieta e exausta me sento. Aqueles olhos doces e miúdos se abrem e ela chora. Me ponho de pé novamente num salto. Desperta, irritada e com raiva..Dela, de mim, do marido dormindo, do mundo que parece em sono profundo.

Meus passos antes tropegos agora sao firmes e irritadiços.Eu poderia acordar o marido? Poderia e sim, aqui ele acordaria e faria sua parte, e acredite, eu o acordo vez ou outra porque não quero nem pretendo vestir a camisa da Super Mulher. Mas hoje, ali, escolho seguir solo.

Ela resmunga novamente. Medo e pavor dela acordar a irmã se misturam a raiva.

Por que mesmo eu quis ser mãe? Eu podia ter uma vida tão mais tranquila e passiva. Podia viajar. Podia tomar um vinho num bom restaurante para esquiar num local lindo, inóspito e gelado por aí.
Bom, eu reflito, mas nem sei esquiar. A raiva aumenta. Se eu não tivesse filhos certamente saberia esquiar.

Suspiro novamente. E de repente ela chega. Aquela que por mais que eu lute contra, surge sem avisar: a bendita culpa. Ah ela sempre virá. Olho para minha pequena tão indefesa e ela vem. Vem e com ela surgem lágrimas. Misturadas ao sono, raiva, cansaço e amor. Todas juntas, numa luta noturna. Uma lágrima escorre e toca o rosto dela, que já mais calma, abre o olhos e mesmo mamando esboça um sorriso de vies.
Que droga de mãe eu sou? sussurro em minha consciência. Que espécie de mãe é essa que ousa sentir raiva do filho? Respiro fundo e imagino as mães perfeitas dizendo: “não nasceu para ser mãe”…. e então choro mais.

De repente, sorrio e constato. E quem nasce para ser mãe? Mães não nascem prontas..maternidade é recomeço, entrega e aprendizados constantes. As lágrimas cessam. A raiva some. Sussurro perdão por ter sentido raiva. A culpa se abrande mas segue ali, quase como uma sombra.

Ela solta o seio e adormece. A crise de colica se foi, só resta a minha crise…a de mãe humana, de mãe exausta, imperfeita, que erra e que a ama. Ah sim, ah como amo. Amor que toma todo meu ser. Beijo com ternura sua testa e a coloco no berço. Silêncio cortado apenas pela nossa respiração. Saio de fininho e vou ao quarto da filha maior, que de maior só tem mesmo a idade, porque continua sendo e será sempre minha pequena. Entro e a observo. Toco seu cabelo, a cubro e fecho um pouco a janela, venta muito nessa noite. Faço uma oração e me vou. Finalmente para o meu sono.

Deito e agradeço. Por elas. Por mim. Por ter sido agraciada com a melhor escola de ensinamentos dada a um ser humano, que é a maternidade. A dádiva de aprender diariamente, de lidar com seus fantasmas e medos e lutar por alguém que não a si mesmo. Suspiro.

É, e quer saber? Eu nunca nem quis esquiar mesmo.

Por Lucinha Marinzek.

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