CARTAS PARA MARÍLIA

01/10/15

Marília,

Depois que me tornei sua mãe…

Eu já quis sumir…

Já chorei escondida e algumas vezes na sua frente (e continuei mesmo vendo que aquilo a assustava)…

Já bati portas…

Tranquei-me por alguns minutos no banheiro buscando silêncio…

Falei palavrões e me apavorei quando você começou a repetí-los igual a um papagaio…

Gritei contigo por coisas que não precisavam sequer de um sermão…

Já cedi a birras e chantagem em momentos extremos de tensão e cansaço, mesmo sabendo que era errado eu agir assim…

Já me senti caminhando num labirinto sem fim…

Já desejei ter minha vida de volta sem filhos…

Já senti raiva de você, seguida de culpa, medos e remorso…

De cada dez coisas erradas que você faz ou fala filha, oito aprendeu vendo meu exemplo.

Algo que eu falei num momento explosivo, um xingamento horrível, uma crise de loucura e nervos… sim, você me imita, desde as coisas boas até as ruins….

É extremamente assustador quando a noto dizendo ou fazendo algo errado, algo que me viu fazer e copiou, como um angustiante espelho refletindo a pior parte de mim mesma.

Educar um filho é muito mais se educar que educá-lo…

É se enxergar nas atitudes dele…

É se cobrar o tempo todo…

É se tornar paciente ou se tornar paciente, não há escolha filha, é na marra, na força do dia a dia…

Já me senti exausta, aliás, confesso, me sinto assim quase todo dia depois que você nasceu…

E em cada momento desses, em que eu me revelo em toda minha pequenez, meu egoísmo e meu lado escuro… Você aparece sorrindo em luz, distribuindo amor, imensidão, carinho…

Nossos sentimentos são tão fortes e visíveis que se tornam quase palpáveis.

E se por vezes vejo refletido em você os meus defeitos e erros, outrora também enxergo em teus olhos e atitudes o meu amor por você. Ali, nesse sincero espelho, entre mãe e filha, toda verdade é transmitida, refletida, vívida.

Eu poderia ser e estar em tantos lugares hoje se não fosse sua MÃE, meus dias sem você seriam calmos, todavia acinzentados.

Pois sabe filha, ainda prefiro a COR. O dilúvio que você trouxe, aquele mar agitado, ondas volúveis. É a tempestade que traz também os melhores sóis.

Da sua mãe.

marilia carta 4

Leia as outras cartas AQUI e AQUI 

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